Levar trabalho para casa faz mal à saúde

Levar trabalho para casa é uma prática polêmica. A maioria torce o nariz só de pensar nesta hipótese, outros não se importam, mas hoje em dia parece que poucos conseguem escapar do hábito. “Respiro, vivo o sindicato. Minha mulher até pediu para eu trazer a cama para cá”, afirma Wanderley Milton Alexandre, assessor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, que trabalha até aos domingos. Quando não vai ao sindicato, ele leva trabalho para casa.

Levar trabalho para casa é uma prática polêmica. A maioria torce o nariz só de pensar nesta hipótese, outros não se importam, mas hoje em dia parece que poucos conseguem escapar do hábito. “Respiro, vivo o sindicato. Minha mulher até pediu para eu trazer a cama para cá”, afirma Wanderley Milton Alexandre, assessor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, que trabalha até aos domingos. Quando não vai ao sindicato, ele leva trabalho para casa.

 

Alexandre conta que trabalha há 34 anos na entidade. Ele diz: “gosto de trabalhar, mas não sei por que faço isso. Vi derrubarem a sede velha e a construção da nova. Raras vezes passeio ou tiro férias. Os filhos me cobram porque não acompanhei o crescimento deles. Eles não são muito ligados a mim e me arrependo. Casei com 21 anos. O tempo foi passando e não vi”, lamenta.

 

A assessora técnica Andréa Isaias leva trabalho para casa. Ela explica que faz isso só quando o trabalho está atrasado e tem prazo para entregar. “Nem sempre levar trabalho para casa significa falta de organização minha. Não depende apenas do meu empenho. Outras pessoas estão envolvidas”, diz.

Izilda Alves Álvares, que trabalha na área de recursos humanos, faz o trabalho no ônibus porque mora em Campinas e trabalha em São Paulo. “Como viajo todos os dias, aproveito as 2h30 de viagem e coloco tudo em dia”, declara.

 

A secretária Vera Lúcia de Godói conta que levou trabalho para casa durante 10 anos, numa época em que desenvolvia muitas atividades. Fazia assessoria bancária, degravação de fitas e produzia boletins. De acordo com ela, era uma vida sem descanso. Mas a secretária diz não se arrepender, pois ficava feliz quando o trabalho terminava.

 

Brigas em casa e problemas de saúde

A assessora de imprensa Janaína Bastos conta que cansou de levar tarefas do trabalho para fazer em casa. Revisão e redação de textos, materiais para leitura, preparação de atividades. “Eram noites e finais de semana sem fim. Na segunda-feira de manhã, já estava cansada, mas era incapaz de dizer que não terminaria uma tarefa”, relata. “O resultado é que ganhava mais trabalho a cada dia, mas ainda assim achava que tinha que dar conta de tudo”.

 

Aos poucos o hábito começou a gerar problemas em casa. Janaína deixou de fazer programas com o marido e o filho e tiveram início as cobranças familiares. As brigas tornaram-se corriqueiras. “Meu marido começou a ficar sem falar comigo durante longos períodos. Foi muito ruim. Passei então a dedicar mais momentos aos dois, mas, mesmo nessas horas, estava sempre pensando nas tarefas que deixava de lado. E aí era uma culpa terrível por dar atenção à família e deixar o trabalho ou por trabalhar e deixar a família”, conta.

 

De acordo com Janaína, o hábito só foi abandonado quando ela começou a ter várias indisposições que a levaram repetidas vezes para o pronto-socorro. “Os médicos sempre atribuíam o problema ao estresse e à falta de descanso, mesmo sem que eu relatasse que trabalhava à noite e no final de semana. Eles diziam que era preciso dormir bem, ter lazer para não adoecer”, lembra.

 

Passados os sustos, ela diz que, de vez em quando, ainda leva algum trabalho para casa. “Mas só toco nele quando é absolutamente imprescindível. Fora dessas situações, acabo esquecendo que o levei. A tarefa fica lá, numa bolsa ou num envelope, até eu voltar para o trabalho no dia seguinte ou na segunda-feira. Estou mais saudável e em paz com minha família”, comemora.

 

Riscos para a saúde

“Quem leva trabalho para casa, além do realizado na empresa, agride a própria saúde e pode ainda ameaçar a da família”, adverte o professor adjunto do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Paulo Gilvane Lopes Pena. Para ele, “a residência é um espaço fundamental para a melhora da qualidade de vida” e a realização de tarefas do trabalho em casa, além de agredir a saúde, traz riscos de “desestruturação familiar e prejudica a realização das atividades domésticas.”

 

Pena diz que as mudanças ocorridas nas empresas são as razões que influenciam a prática de levar trabalho para casa. A exigência do trabalhador polivalente – uma pessoa que acumula várias funções diferentes - é uma delas. Também as revoluções tecnológicas, que se acentuam e exigem formação permanente, requerem esforço extra, quase nunca considerado pela empresa. “O processo de aprendizado é iniciativa do trabalhador, o que causa uma sobrecarga psíquica do trabalho e força a condução de atividades para serem realizadas na residência”. 

 

De acordo com Pena, os problemas de saúde gerados pela sobrecarga de tarefas podem ser graves. O estresse do trabalho pode levar a distúrbios psíquicos variados, doenças cardiovasculares, gastrointestinais, entre outras. O professor ressalva também que cada um pode reagir de um jeito: “Os efeitos são cumulativos sobre o organismo e, geralmente, não há sintomas precoces para alertar os trabalhadores. Quando as manifestações clínicas ocorrem, as patologias se encontram instaladas e, não raramente, em situações de risco de morte, como infartos e acidentes vasculares cerebrais”, ele explica.

 

É possível acabar com a prática de levar trabalho para casa? Pena diz que não há respostas prontas para isso:

 

“São processos complexos relacionados às transformações estruturais do capitalismo e situações conjunturais referentes às diversas políticas sociais e trabalhistas. A construção de saídas envolve práticas que são essenciais, como a conscientização dos trabalhadores nas lutas contra formas antigas e modernas de exploração do trabalho. Estudos e pesquisas podem ajudar a demonstrar os efeitos nocivos à saúde dos trabalhadores resultantes do trabalho deslocado da empresa para a moradia e conferir aos sindicatos mais instrumentos de luta para alcançar novos direitos ou, ao menos, preservar os existentes. De toda forma, o fortalecimento dos sindicatos representa a perspectiva segura na construção coletiva da ruptura com essa velha/nova imposição desse ‘hábito’ no mundo do trabalho. O tempo fora do trabalho deve ser destinado ao lazer, às atividades lúdicas e culturais, à família, que favorecem a recomposição do desgaste psicofísico do trabalho. O sobretrabalho realizado em casa, como uma constante e resultante de organizações nocivas do trabalho, é um retrocesso nessa tendência histórica de conquistas sociais”, ensina.

 

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